23 de outubro de 2016

Gigante tricolor


Fui procurar minha sorte numa terra muito estranha, num estádio muito estranho. As curvas das placas de ferro por fora do estádio obrigando a erguer os olhos e admitir que estava abaixo daquilo, as escadas infindáveis de concreto para chegar no setor visitante totalmente envidraçado. Uma ilusão. Coloquem-nos num cubo, proíbam-nos de subir nas cadeiras, mas viemos a sério. Cantamos até o fim, até a voz acabar, corre o sangue utópico nas veias: totalmente azul.
O primeiro gol da partida quebrou meu coração. Me fez lembrar de quando eu era criança e torcia em pé no meu quarto ouvindo o jogo pelo rádio. Me fez lembrar que a primeira vez que fui ao estádio ver meu time ele perdeu de goleada. Era aquela mesma velha dor, não doía como a primeira vez, trazia o peso de todas as vezes. Uma pancada.
Não conseguia cantar porque chorava. Uma paz caótica me atingiu, não fiquei desesperada, era como se fosse morrer. Só conseguia chorar, estava encolhida, pequena. O silêncio mortal cortou minha garganta, nossa torcida parou enquanto o estádio inteiro vibrava. De leste a oeste os palestrinos juntos num único pulo e num único grito, eu calada e colada no chão. Todo este peso.
Queria cantar e  a acreditar, mas como continuar se aqueles ao meu lado já estavam silenciados pela descrença? Jogada de volta aos momentos de infância, me esforçava para lembrar das alegrias, das vitórias. Tcheco e o gauchão de 2007, a classificação na Libertadores segurando o santinho do Frei Galvão, sair na rua com a bandeira, ir pra escola com o rosto pintado.
Era um desejo maior do que qualquer gol, maior que a classificação, era de felicidade em si. Buscava algo muito maior que a sorte, um novo capítulo de sucesso, uma nova crônica de glória.
E então veio a vaia, o escárnio cego e arrebatador. Aquele que congela o corpo, destrói a mente, diminui. Ela veio em onda para varrer o campo, mas acabou empurrando a bola. Gol. De leste a oeste as mãos na cabeça em incompreensão, o estádio calado e eu eufórica. Fez-se ali uma verdadeira explosão. Terra estranha, estádio estranho, este amontoado de verde inexplicável quando o mundo todo, naquele momento, parecia ser azul, preto e branco.
A tristeza e as lágrimas que antes me impediam de cantar, se tornaram alegria que não cabia em grito algum. Não tinha como comemorar o suficiente para a grandeza daquele feito. O Grêmio, a torcida e eu éramos um, éramos enorme. O que aconteceu era grande demais, t
irar a camisa foi o máximo que Everton podia fazer. Eu entendo, nessa noite demos o nosso máximo. Não era o melhor, era nervoso, desajeitado, mas era forte e tricolor. Era maior que a própria felicidade, que um gol, que a classificação, era genuinamente o Grêmio e nada mais.

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