17 de dezembro de 2016

O Penta



Os 43 do segundo tempo foram um momento decisivo. Não havia mais nada que se pudesse fazer a não ser esperar. A ansiedade explodindo dentro do corpo e esse banho de felicidade por fora. As palavras ditando o que iria ser e o que iria acontecer perdendo o sentido, porque era ali e agora. Aquela era a hora. Fomos arrebatados com lembranças de todos os tipos e profundidades, as memórias definitivas que construíram essa história e tudo deixando uma única certeza: Grêmio, como eu te amo.

Lembrei das vezes que choramos e perdemos a voz por ti, foram tantas. As vezes de coração partido em que ouvi alguém cantando bem baixinho, aquela nossa música, e pensei “não pode ser coincidência”, começando a cantar também e a coisa toda crescendo e tomando forma. Tudo isso me veio no peito, porque lembrei com o coração.

Tudo valeu a pena. Todas as dores, as desilusões e promessas, do teu lado e do meu, que afinal é um só. Nos braços de Maicon, aquela taça e o brilho do metal, por mais longe que estivesse, na verdade, era nosso. Se cada um dos jogadores pôde erguê-la, então eu também ergui.

Nessa noite que te vimos ganhar, ficou escancarado para o universo inteiro admirar que o amor que nos envolve não tem fim e é tão grande como tu. Que dos dedos dos pés até a ponta dos fios de cabelo, somos azul, preto e branco. Inteiramente paixão. Já não conseguia mais chorar, pois minhas lágrimas, que correram quando tu caíste, se recusaram a sair quando tu provaste que é o maior.

Esse momento que esperamos tanto estava diante de nossos olhos. O juiz apitou, o jogo acabou, o mundo caiu e nada mais importa. O Grêmio é campeão. É campeão, é o que encho a boca para dizer aos quatro ventos, é o que gritamos pro mundo inteiro ouvir naquela noite, hoje e sempre. Porque é verdade e nunca foi tão verdade, tão certo, tão bom. E já não existe mais eu, tu ou ele, somos Grêmio. Sem se beliscar, tenha fé e confie no que digo, não é um sonho. É campeão.

6 de dezembro de 2016

A história dessa camisa




Depois de perder alguma final ou semifinal, o coração ficou ferido. Você se banha no descrédito e falta com fé ao seu time. Em algum ponto do caminho, percebe que nem tudo se perdeu e que no fundo nunca havia deixado de acreditar. Sua confiança começa a voltar. Quando minha crença ressurgiu em mim, pedi para minha irmã uma camisa de presente e ganhei um modelo retrô. Foi assim que ela chegou a mim.
Essa camisa me acompanhou na eliminação contra o Juventude pelo gauchão, na vitória contra o Toluca na arena, nos empates nos GREnais, na classificação gloriosa contra o Palmeiras. Minha segunda pele esteve comigo na alegria e na tristeza, nos momentos em que a felicidade já não cabia mais no peito e quando o desespero mutilou meu espírito. Mas essa não é a história dessa camisa.
Não é só o que veste minha alma azul celeste, ela é pesada, sofrida. É uma história de dores e de glórias. Não são só três cores, é a combinação que dá ritmo para a batida dos nossos corações.
Começa assim. Caminhando pela rua em silêncio, embora sem muita tranquilidade, vejo alguém do outro lado da rua com as mesmas cores, o mesmo escudo. Vejo esse alguém que me vê de volta, nos reconhecemos. Não sabemos nomes, mas nos conhecemos intimamente. As batalhas que ganhamos e que perdemos foram as mesmas. Nunca vi essa pessoa na minha vida, mas estivemos juntas esse tempo todo.
Continuando a caminhada, vejo outra e outro que sentem, amam e vivem como eu. Nada que acreditamos ser nosso importa, somos um. Percebo que essas pessoas se reconhecem como eu as reconheço e que existem outras pelo caminho. É final de tarde de uma quarta-feira qualquer, começa a invasão silenciosa. Vamos tomando as ruas, os passos que antes pareciam sem rumo agora indicam porque viemos.
As taças que conquistamos e as taças que perdemos, os amigos que fizemos, as horas que choramos. É o manto que vai dominando as avenidas em uníssono. É o pensamento que nos une e nos faz muito mais que irmãos sob esse teto azul. É ela que nos leva hipnotizados até o estádio numa dança magnética, nesse desejo alucinado que faz o sangue correr... Esqueça garganta e cordas vocais, é um grito que vem de um lugar profundo do coração com a voz do nosso ser: queremos a copa! Essa é a história dessa camisa.


Por Clarice Sena

4 de dezembro de 2016

Pacto

Fiz um pacto de sangue com os restos de um estádio. Sobre o concreto ainda pintado de azul dei meu sangue como gesto de fidelidade: aquele seria o meu único amor.
Nessa altura do campeonato não existe time tão bonito ou que jogue tão bem quanto o Grêmio, os dias de realismo acabaram. Já não procuro mais esquema tático nem me preocupo com Ramiro. As expectativas mudaram, as cartas na mesa mudaram.
Nesta ânsia por algo maior, sem saber o que quero, penso que quero tudo. Quero internacional rebaixado, entrar no g6, ganhar esta copa e o mundo. E talvez ainda não fosse suficiente. A ansiedade e a ambição de quem tem não só sede de vitória e fome de título, mas de quem está desidratada, subnutrida, vivendo o caos.
Os anos passaram e eu não os passei sentada na frente da TV esperando, foi de pé, foi indo ao estádio, foi nesse alento até perder a voz. Não foi até cansar, porque mesmo esgotados continuamos empurrando. Não foi até a esperança acabar, porque mesmo quando tudo se perdeu levantamos e lutamos. Olho para o céu e me pergunto se o que quero é demais, é exagero? E se eu tudo tivesse talvez ainda não me contentasse. O Sol se esconde, as nuvens desaparecem e então só resta essa imensidão de azul. Se não é exagero ter o céu inteiro da minha cor, os nossos sonhos são possíveis. Vamos Grêmio, tu és copeiro.

23 de outubro de 2016

Gigante tricolor


Fui procurar minha sorte numa terra muito estranha, num estádio muito estranho. As curvas das placas de ferro por fora do estádio obrigando a erguer os olhos e admitir que estava abaixo daquilo, as escadas infindáveis de concreto para chegar no setor visitante totalmente envidraçado. Uma ilusão. Coloquem-nos num cubo, proíbam-nos de subir nas cadeiras, mas viemos a sério. Cantamos até o fim, até a voz acabar, corre o sangue utópico nas veias: totalmente azul.
O primeiro gol da partida quebrou meu coração. Me fez lembrar de quando eu era criança e torcia em pé no meu quarto ouvindo o jogo pelo rádio. Me fez lembrar que a primeira vez que fui ao estádio ver meu time ele perdeu de goleada. Era aquela mesma velha dor, não doía como a primeira vez, trazia o peso de todas as vezes. Uma pancada.
Não conseguia cantar porque chorava. Uma paz caótica me atingiu, não fiquei desesperada, era como se fosse morrer. Só conseguia chorar, estava encolhida, pequena. O silêncio mortal cortou minha garganta, nossa torcida parou enquanto o estádio inteiro vibrava. De leste a oeste os palestrinos juntos num único pulo e num único grito, eu calada e colada no chão. Todo este peso.
Queria cantar e  a acreditar, mas como continuar se aqueles ao meu lado já estavam silenciados pela descrença? Jogada de volta aos momentos de infância, me esforçava para lembrar das alegrias, das vitórias. Tcheco e o gauchão de 2007, a classificação na Libertadores segurando o santinho do Frei Galvão, sair na rua com a bandeira, ir pra escola com o rosto pintado.
Era um desejo maior do que qualquer gol, maior que a classificação, era de felicidade em si. Buscava algo muito maior que a sorte, um novo capítulo de sucesso, uma nova crônica de glória.
E então veio a vaia, o escárnio cego e arrebatador. Aquele que congela o corpo, destrói a mente, diminui. Ela veio em onda para varrer o campo, mas acabou empurrando a bola. Gol. De leste a oeste as mãos na cabeça em incompreensão, o estádio calado e eu eufórica. Fez-se ali uma verdadeira explosão. Terra estranha, estádio estranho, este amontoado de verde inexplicável quando o mundo todo, naquele momento, parecia ser azul, preto e branco.
A tristeza e as lágrimas que antes me impediam de cantar, se tornaram alegria que não cabia em grito algum. Não tinha como comemorar o suficiente para a grandeza daquele feito. O Grêmio, a torcida e eu éramos um, éramos enorme. O que aconteceu era grande demais, t
irar a camisa foi o máximo que Everton podia fazer. Eu entendo, nessa noite demos o nosso máximo. Não era o melhor, era nervoso, desajeitado, mas era forte e tricolor. Era maior que a própria felicidade, que um gol, que a classificação, era genuinamente o Grêmio e nada mais.

29 de setembro de 2016

O ímpeto de acreditar e vencer


Foto: reprodução/gremioinstagram

Desde o dia em que os confrontos foram definidos eu sabia que precisaríamos de uma força maior para ganhar essa partida, solicitei a ajuda dos deuses do futebol e de toda a mística possível envolvendo o tricolor. Era preciso um time de loucos e uma torcida de loucos. Não fui a única a perceber que precisávamos de ajuda, realmente havia algo de mágico no clima de ontem. O papel voando lembrava os tempos de Olímpico, tínhamos algo grandioso ali e nem sabíamos o que vinha pela frente.
Quando Ramiro chutou aquela bola, ninguém acreditava. Nem ele acreditava. Cheguei a reclamar, meu reflexo foi de pensar "o cara chutou a bola para ninguém". De certa forma eu estava certa: ele chutou pro gol. Quando ela entrou o descontrole foi geral. Aquele foi o gol que liquidou a equipe palmeirense, ali estava decretada a sua derrota. O primeiro gol de tamanha decisão foi como um corte ardente no calcanhar de Aquiles, o líder sangrava.

Num embate de medalhões entre Douglas e nosso ex Zé Roberto, deixamos o recado: aquele Grêmio vinha com tudo e não iria perder. Kannemann ajudou a segurar o escrete alviverde como se azul, preto e branco fossem sua segunda pele. Geromel sempre brilha além de suas obrigações e ontem não foi diferente. Ramiro e Marcelo Oliveira fizeram o impensável se pensarmos em suas antigas atuações.
Formou-se ali uma configuração forte e confiante, ali eram mais que jogadores em uma partida, era um verdadeiro time para o qual podíamos torcer. Tínhamos dois na conta quando o pênalti foi marcado e, diga-se de passagem, a arbitragem foi lamentável. Que a CBF é cretina ninguém duvida, porém ver o destempero agindo é assustadoramente asqueroso.
Feito o score, infelizmente chega o gol palestrino e só aumenta o gostinho de "quero mais". O terceiro gol não veio, mesmo com o jogo controlado. Só veio a festa da geral, o delírio de que é possível, outro passo neste caminho audaz em busca do título. E o jogo ainda não acabou, São Paulo aguarda nossa fúria e loucura desesperadas pela glória. Neste intervalo o entusiasmo não pode morrer por falta de fé, por pensar em pensar, vamos agarrar o impossível e fazê-lo uma velha lembrança. Preparem-se para o segundo tempo.

28 de setembro de 2016

À luz da malandragem

Há tempos que sinto: estão nos matando. Só vivemos de esperanças. Esses pontos que não podíamos jogar fora e perdemos, não tem o que fazer, já deixamos para trás. Nessa hora não há mais o que lamentar, hoje só temos um destino. Não estamos falidos de paixão, não estamos falidos de coragem, não caímos por completo. Façamos concreto e azul do que é plástico e insosso.
O que nos feriu e fez sofrer nos encara como que pedindo perdão. Nessa noite não quero este olhar pidão, a cabeça baixa, não quero desculpas. Se este time já foi baixo então que hoje seja charmosamente baixíssimo. Sem cortesia, sem ternura. As lembranças dos dias de glória começam a doer, sem transformar lágrimas em suor, que apertem mais, que façam força nos músculos. Hoje é um dia em branco, sem fantasmas do passado, sem triunfos para atormentar. Nenhum homem jamais esteve neste lugar que queremos alcançar.
Neste teste tricolor, há mais para funcionar do que sístole e diástole. Que venha a luz dos botecos, que venha a magia da irresponsabilidade, a ginga de viver o mistério do futebol. Estejam iluminados de malandragem, pois mais do que nunca os borrachos e loucos devem estar presentes, de corpo, alma e fé. Começa mais uma dura batalha e vamos lutar malandramente.
É hora de escrever a história do nosso novo estádio e fazê-lo estádio de fato. Não temos arena, não temos mais luxo nenhum. É preciso suar a camisa com a euforia de um canalha e ser forte como nossos soluços, os delírios que despertam o corpo devem envolver quem estiver por perto. O jogo começa essa noite, mas só acaba dia 19. Vamos com tudo.